quarta-feira, 23 de maio de 2007

Obra poética

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega fingir que é dor
A dor que deveras sente.


(Fernando Pessoa/Bernardo Soares; Autopsicografia; Publicado em 1 de Abril de 1931)

Considera-se que a grande criação estética de Pessoa foi a invenção heteronímica que atravessa toda a sua obra. Os heterônimos, diferentemente dos pseudônimos, são personalidades poéticas completas: identidades, que, em princípio falsas, tornam-se verdadeiras através de sua manifestação artística própria e diversa do autor original. Entre os heterônimos, o próprio Fernando Pessoa passou a ser chamado de ortônimo, já que era a personalidade original. Entretanto, com o amadurecimento de cada uma das outras personalidades, o próprio ortônimo tornou-se apenas mais um heterônimo entre os outros. Os três heterônimos mais conhecidos (e também aqueles com maior obra poética) foram Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro. Um quarto heterônimo de grande importância na obra de Pessoa é Bernardo Soares, autor do Livro do Desassossego, importante obra literária do século XX. Bernardo é considerado um semi-heterônimo por ter muitas semelhanças com Fernando Pessoa e não possuir uma personalidade muito característica. Ao contrário dos três, que possuem até mesmo data de nascimento e morte, com exceção de Ricardo Reis que não possui data de falecimento. Por essa razão, o português ganhador do Prêmio Nobel José Saramago escreveu o livro O ano da morte de Ricardo Reis.

Através dos heterônimos, Pessoa conduziu uma profunda reflexão sobre a relação entre verdade, existência e identidade. Este último fator, possui grande notabilidade na famosa misteriosidade do poeta.
Com uma tal falta de gente coexistível, como há hoje, que pode um homem de sensibilidade fazer senão inventar os seus amigos, ou quando menos, os seus companheiros de espírito?

Entre pseudónimos, heterónimos e semi-heterónimos contam-se 72 nomes.

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