domingo, 12 de julho de 2009

Meus Pensamentos



pensador.info

quarta-feira, 23 de maio de 2007

Ao Longe (Ricardo Reis)

Ao longe os montes têm neve ao sol,
Mas é suave já o frio calmo
Que alisa e agudece
Os dardos do sol alto.
Hoje, Neera, não nos escondamos,
Nada nos falta, porque nada somos.
Não esperamos nada E ternos frio ao sol.
Mas tal como é, gozemos o momento,
Solenes na alegria levemente,
E aguardando a morte
Como quem a conhece.

Aqui, neste misérrimo desterro (Ricardo Reis)

Aqui, neste misérrimo desterro
Onde nem desterrado estou, habito,
Fiel, sem que queira, àquele antigo erro
Pelo qual sou proscritoquerer ser igual a alguém
Feliz em suma — quanto a sorte deu A cada .
O erro de coração o único bem
De ele poder ser seu.

Aqui, Neera, longe (Ricardo Reis)

Aqui, Neera, longe

De homens e de cidades,

Por ninguém nos tolher

O passo, nem vedarem

A nossa vista as casas,

Podemos crer-nos livres.

Bem sei, é flava, que inda

Nos tolhe a vida o corpo,

E não temos a mão

Onde temos a alma;

Bem sei que mesmo aqui

Se nos gasta esta carne

Que os deuses concederam

Ao estado antes de Averno.

Mas aqui não nos prendem

Mais coisas do que a vida,

Mãos alheias não tomam

Do nosso braço, ou passos

Humanos se atravessam

Pelo nosso caminho.

Não nos sentimos presos

Senão com pensarmos nisso,

Por isso não pensemos

E deixemo-nos crer

Na inteira liberdade

Que é a ilusão que agora

Nos torna iguais dos deuses.

Aqui, dizeis, na cova a que me abeiro (Ricardo Reis)

Aqui, dizeis, na cova a que me abeiro,
Não 'stá quem eu amei.
Olhar nem riso
Se escondem nesta leira.
Ah, mas olhos e boca aqui se escondem!
Mãos apertei, não alma, e aqui jazem.
Homem, um corpo choro!

Aguardo (Ricardo Reis)

Aguardo, equânime, o que não conheço

— Meu futuro e o de tudo.

No fim tudo será silêncio, salvo

Onde o mar banhar nada.

A flor que és (Ricardo Reis)



A flor que és, não a que dás, eu quero.
Porque me negas o que te não peço.
Tempo há para negares
Depois de teres dado.
Flor, sê-me flor!
Se te colher avaro
A mão da infausta esfinge, tu perere
Sombra errarás absurda,
Buscando o que não deste.